eu não vou com você

imagesnão me chame à rua
nós não lutamos as mesmas lutas
minhas pautas não são suas
minhas falas não são as suas
nós não caminhamos sob a mesma lua
nem fitamos os mesmos sóis

tem fumaça escura na tua rua
tem fumaça colorida
tem fumaça que aos olhos irrita
e uma bandeira que flamula
tem muita fumaça nessa rua
e nem é fumaça de tabaco, de canabis ou do turíbulo, não é a fumaça do cura

é fumaça que mata
é fumaça que cega
sufoca quem inala
e tem cheiro de mata queimada
e se espalha, e cobre as casas, as caras, as intenções escusas

há algo de errado com sua rua
as mãos estão trocadas
pois é via de mão-dupla
são mãos que não se tocam
e tem coisas que se chocam no contra-fluxo
e agora as mãos se soltam
e a queda é inevitável em plena via pública

esta rua está obliterada
as calçadas abalroadas
e tem lama subindo pelos bueiros
de longe sente-se o cheiro
veja suas botas, estão sujas
veja como a lama se avoluma
mistura-se com sangue e com chuva

e você sacode uma bandeira
e marcha ritmado pela rua
mas a lama te segura
e a enxurrada te arrasta para o fim da rua
você tenta arremeter contra a lama
e se lança em turba, com a cara sisuda
vá em frente antes que a lama te engula

tem coisas caindo aos montes
dos prédios que vazam feito fontes
entopem a rua
de vasos, de móveis, de livros
de crianças desnutridas e nuas
de sonhos, de soleiras, de dentes
de gente que flutuava metros acima da rua

saia desta rua
pois a noite já se faz tesa e dura
e vem como uma medusa
pra te fazer um herói
de uma guerra obscura
sem louros e sem voz
mais uma escultura
no meio de uma praça
de esquina para aquela rua

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Concret Jungle (ou Travessia)

Atravesso a cidade monstruosa.

miro em volta mil bocas negras,

que engolem navalhas de luz

cortantes a rasgar o ar.

E os monstros concretos

se insinuam no horizonte

horrendos.

Seus muitos olhos me observam.

Tentáculos saem de todas as direções

e vão sabe Deus aonde,

conduzem fantoches de carne e sonhos

à onde nada é.

Posso eu sustentar o ar azougue,

suportar os estrondos metálicos,

conceber tantas tribos,

conhecer tanta gente?

Estou com a cabeça petrificada,

os olhos congestionados.

Os membros querem deixar-me o corpo,

amanhecido por luzes de néon.

Chego a um ponto de equilíbrio

em alguma  marquise desconhecida.

Daqui de um elevado,

é tudo uma sopa de elementos confusos.

Corro o risco de nunca me encontrar

e o resgate do meu corpo perdido,

pode me custar a anima.

Por que correr o risco?

Estou aqui e lá,

fundido, perdido na cidade monstro.

Sou um monumento concretista ,

forjado pela medusa urbanística.

nem uma coisa e nem outra

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um país sem república
e a república sem res publica
anda de marcha-a-ré
nega o viés mas aplaude e publica
e a massa sem fé e sem prática
a tudo replica
de forma privada e pública
sem filtro e sem mesuras
(não quer ver, não clica)

juízes sem juízo
não atentam ao bom siso
encarceram corpos
sem corpus de provas
negam habeas e pedem vistas
e pra prova dada fazem vista-grossa

o que dizer do planalto?
com seus planos altos: planificar a tudo; nivelar por baixo o passado; um futuro de voos rasos
bytes e circo
o pão virtual repartido com pobres e ricos

e da rede social vem mais [mais, más, sei lá] “notícias”
tudo que se dizia não era o que se queria
ou não se queria o que se dizia?
outra falsa notícia
assim, desmente-se a mentira
e a verdade?
essa não se publica
nem se sabe se ainda é viva

absolutamente tudo é dito, desdito, não-dito, maldito e bendito, bem-dito e mal-dito, interdito…editado, publicado, reupado, compartilhado, printado, apagado, negado
e eu nada digo
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viva até morrer

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a vida é doce, salgada, amarga, azeda, acre, a vida é ocre, a vida é azar e sorte. a vida é tinta forte, têmpera e também é aquarela. dizem que é bela, e é suja, e cheia de mazelas. a vida é espera, é chegada, é partida, é pódio e derrota. a vida é fútil, tátil, fácil, imensurável e também um átimo. a vida é minha, a vida é sua, é um “ser” a ser partilhado entre mim e ti, entre nós, entre vós, entre tantos mais que possam vir a ser. a vida é dura, é mole, é áspera, a vida é líquida, a vida corre como rio e encrespa feito mar. a vida é dádiva, é karma, é carne, a vida é você. “viva e deixe viver”.

Marcelo Yuka presente

 

 

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Marcelo Yuka presente, sempre
Na música, na rua, nas coisas que se sente
Presente na poesia, na rima, neste exato momento
Yuka é presente pra gente
Que é da periferia, do coletivo com ou sem minorias
Yuka é voz pra gente
Que é da reza, da vela e de todos os santos
Yuka soube como unir os pontos
Da prática pra fala
E vice-versa
Respeitando os lugares de fala
Sem os dogmas limitantes
E se militar é verbo
E lutar é urgente
Yuka foi, e é, militante
Findou sua vida
Mas seu legado continua
E em nós se multiplica
Vá em paz Marcelo Yuka

Em meio ao caos do seu marasmo

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É fácil ser empático
no trato virtual e distanciado
É fácil ser vegano
com comida na dispensa sobrando
É muito fácil ser good vibes, místico, cabalista
quando teu ancestral não é yorubano
e nem enfrentou regime escravagista
É fácil tá na moda, tá nas rodas
se não é samba que tá tocando
e se toca é pra agradar dondoca
que pensa que é filha de santo
mas não sabe diferença entre um xirê e um ponto
Tão fácil ser da paz e do amor
enquanto sua dor tá medicada
tua mente tá mediada
e ninguém te causa incômodo
É fácil ser cosmopolita
mas se é espano que pinta
aí já muda o ponto de vista
“mas você está exagerandoexagerando,
o diabo não é tão feio quanto se pinta”
E da visão generalista, obitusa e maniqueísta
mais preconceitos vão se formando
É fácil ser simpático
com sorrisos falsos
textos fragmentados e de autoria duvidosa
É fácil ser proativo, ser voluntário
quando não se tem nenhum contato
e nenhuma práxis
?pra evitar algum contágio?
nenhum oi pra quem tá descalço e sem abrigo
Oh Freud, livrai-nos desse páthos
É fácil ser minimalista
tendo dinheiro na conta a perder de vista
tirar foto suando
em academia na av paulista
pra dizer que rala pra caralho
e é claro, sem camisa
É fácil ter lugar de fala
quando tudo mundo se cala
pro sinhôzinho branco
todo cheio de discurso pronto
pra não ter que encarar
o pranto do preto que grita
e te fita, e dá mais uma finta
nos gambé que vem trotando
com a boca arreganhada, babando
Lá vem mais bordoada
e na sequência: a passada de pano
É fa-cí-li-mo ser pacífico
quando não se tá na reta da bala perdida
nem na vala com a boca cheia de formiga
É tão fácil ser pró-vida
quando não se tem que gritar pra ser ouvida
Mais fácil ainda é ter seu corpo resguardado
em carro blindado
com seguranças armados
e um séquito de cupinchas
é tão fácil ocupar os espaços
que foram passados de pai pra filho
e o resto que se vire
com os que já tão solapados
e não tem vigia

mas não me leve a mal
com este texto banal
gramaticalmente anormal
é só um desabafo
meio que um ato falho
em meio ao caos do seu marasmo

Janela

img_20190102_183123Aberta ou fechada,
Sempre uma saída,
Metafísica clicherizada
Por onde vaza a luz à noite, entra a luz do dia.

Enquadramento momentâneo;
Obsessão do suicida;
Um caminho que desata
Por veredas a perder de vista.

Poderias te alongar e ser uma porta,
Por onde entram e saem coisas;
Deixar a má fama,
De ser por onde as mágoas se atiram.

Terias maçaneta e dobradiças,
Que te abririam e fechariam;
O lusco-fusco da espera,
Com estalidos de nostalgia.

Parecerias muito mais com uma mirada;
Serias, então, a entrada da alma,
Não mais o caminho curto,
Não mais o fim da linha.

A terra é redonda

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o mundo tornou-se um lugar imundo
cheio de escória e seres esdrúxulos
sem regras, sem portas, sem eira e sem rumo

no mundo vomitam os homens
suas facas, suas falas, seus cala-bocas,
sangue e sêmen, tudo junto

quem pode medir mundo?
em extensão, distensão, desvãos,
vazão do que nem é mundo,
todos os poços que não têm fundo

para onde vai o mundo?
se não sai do lugar
só gira, à vezes inclina
mas tudo bem devagar

quem criou o mundo?
um deus vulgar e iracundo
ou um ser universal que ama todo o mundo?

algum dia terá fim, o mundo?
com fogo e raios profusos
será limpo de toda a escória humana
de todo o lixo do mundo

sem uma visão clara de mundo
calo, fico mudo